sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Professor com viência no exterior

Extraído do ótimo blog do professor Denilson de Lima.

Dias atrás publiquei aqui no blog um post intitulado 'Quem é o melhor professor de inglês? Nativo ou não-nativo?'. Nele falei sobre um dos mitos mais frequentes no ensino de língua inglesa que persiste em ser perpetuado no Brasil. Apresentei lá também a opinião do linguista David Graddol que realiza pesquisas e estudos para o British Council [Conselho Britânico] e disse em entrevista ao G1 que "O melhor professor é aquele que fala a língua materna de quem está aprendendo o idioma. Também é preciso ser altamente capacitado e ter um ótimo domínio do idioma, claro."

O curioso é que no Brasil há ainda um outro mito com relação a professores de inglês. Mito tão péssimo e absurdo quanto aquele do professor nativo. Trata-se do mito do professor de inglês com vivência no exterior. A grande maioria das escolas de inglês utiliza isto como marketing na captação de novos alunos e perpetuam ainda mais este mito quando exigem que os candidatos à vaga de professores tenham morado fora do país por algum tempo.

Imagine a situação. Um brasileiro desanimado com a vida nas terras tupiniquins decide tentar a sorte, por exemplo, nos Estados Unidos. O cidadão sai daqui e neste outro país trabalha de pedreiro, garçom, auxiliar de serviços gerais, zelador, técnico de som em danceterias, taxista, recepcionista, etc. Esta pessoa fica cerca de cinco anos pulando de um trabalho [bico] a outro. Neste tempo convive com a língua e [alguns poucos] acabam aprendendo a falar inglês fluentemente.

Certo dia este cidadão retorna ao Brasil. Então, ele decide arrumar um emprego por aqui. Por incrível que pareça ele prepara um currículo e deixa em uma escola de inglês. Afinal, ele tem aquilo que a maioria das escolas de inglês quer: vivência no exterior e inglês fluente.

Neste momento, eu tenho de fazer algumas perguntas: 1) Quem está enganando quem? 2) Que experiências pedagógicas esta pessoa tem? 3) Como ele pode dar aulas de inglês se nem ao menos tem conhecimento sobre o ensino da língua inglesa como um todo: métodos, abordagens, técnicas de ensino, práticas pedagógicas, psicologia básica para lidar com os alunos, conhecimentos de psicopedagogia para identificar as dificuldades dos alunos, técnicas de gerenciamento de sala de aula, etc?

Para encurtar a conversa, listo abaixo alguns pontos a serem refletidos por todos [profissionais da área, donos de escolas, estudantes, clientes, empresas, governo, mídia, etc]:
  1. Os cursos de Letras na grande maioria são fracos e não capacitam bem os professores de língua inglesa. Sem contar que muitas pessoas fazem o curso de Letras achando que depois de formadas falarão inglês fluentemente. Na verdade, deveriam entrar na faculdade já tendo, no mínimo, nível intermediário de inglês. Isto facilitaria muito a formação acadêmica delas;
  2. Falar inglês fluentemente não é o suficiente para ser professor de língua inglesa. Morar em um país de língua inglesa por algum tempo também não é prova de que a pessoa é professor de língua inglesa. Conheço pessoas que moraram anos fora do Brasil e falam inglês mal e porcamente [e elas reconhecem isto]. Aliás, todos nós moramos no Brasil e falamos português, no entanto não somos professores de língua portuguesa;
  3. Outros países [incluindo os países pobres da América Latina] estão anos-luz à frente do Brasil no que se refere à ensino de língua inglesa. Parafraseando uma fala do grande filólogo, gramático e linguista Celso Pedro Luft, podemos dizer que em matéria de ensino de língua inglesa, infelizmente, o Brasil continua rotineiro e bitolado.
  4. O treinamento pedagógico dado pela grande maioira das escolas de idiomas se resume apenas à ensinar aos professores as 'técnicas de ensino' [passo a passo] de utilização dos livros daquela escolas. São poucas as escolas [franquias ou não] que formam adequadamente seus professores de língua inglesa. Vale dizer que nestas pouquíssimas escolas os requisitos para contratação são bem complexos.
As escolas preocupadas com vivência no exterior deveriam exigir outras coisas mais importantes, tais como: conhecimento de ensino da língua inglesa, perfil para lidar com conflitos em sala de aula, técnicas de gerenciamento de sala de aulas, o professor como modelo linguístico [bom conhecimento da língua, inglês fluente e acurado, boa pronúncia, boa dicção, etc], o professor como fornecedor de input compreensível. Tenho certeza que uma lida cuidados no livro The Practice of English Language Teaching, de Jeremy Harmer, poderá ajudar estas escolas a reverem os seus conceitos.

Minha última pergunta é na verdade um desafio: Que tal estas escolas começarem a revolucionar o ensino da língua inglesa no Brasil ao invés de revolucionar apenas o mundo da publicidade [marketing, propaganda, etc]? É preferível gastar milhões em propaganda e menos em capacitação profissional de seus professores? Professor de Inglês com vivência no exterior é uma coisa, ter apenas a vivência no exterior é outra!

Para encerrar, afirmo que há no Brasil algumas escolas realmente boas e que se preocupam com a formação pedagógica de seus professores [tenham eles vivência no exterior ou não]. A estas escolas, o meu total respeito e admiração.

Fonte: http://denilsodelima.blogspot.com/2009/11/professor-de-ingles-com-vivencia-no.html

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